
Solidão nos olhos
Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.
Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.
Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.
Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.
Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.
Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.
Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.
A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.
Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.
Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.
Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.
Nada alivia a distância.
A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.














Realmente foram tempos em que precisamos encontrar outras formas de perceber as pessoas por inteiro